Por que a mesma política parece diferente para cada pessoa.
Duas pessoas podem assistir ao mesmo discurso sobre imigração e interpretá-lo de maneiras opostas. Um estudo de neuroimagem publicado em 2020 sugere que a diferença não está apenas no que elas veem ou ouvem, mas em como constroem o significado da narrativa.
Pesquisadores analisaram 38 norte-americanos, divididos entre participantes com atitudes mais liberais ou conservadoras sobre imigração, enquanto assistiam a 24 vídeos sobre seis políticas migratórias. As respostas foram semelhantes nas áreas visuais e auditivas primárias, mas divergiram no córtex pré-frontal dorsomedial, região associada à interpretação de narrativas e à construção de modelos mentais.
A divergência aumentou em trechos com linguagem relacionada a risco, como “perigo”, “segurança” e “proteção”, e com palavras moral-emocionais, como “dano”, “compaixão” e “violação”. A conectividade entre o estriado ventral, ligado à valência afetiva, e o córtex pré-frontal também foi mais semelhante entre participantes com atitudes próximas.
Além disso, quanto mais a atividade cerebral de uma pessoa se parecia com a média de um grupo, maior era a associação com uma mudança de atitude na direção defendida por esse grupo. O resultado não permite prever o voto de alguém nem prova que uma área cerebral cause a polarização. Trata-se de uma associação observada em um estudo pequeno, sobre imigração e nos Estados Unidos.
A conclusão é mais cuidadosa e talvez mais interessante: nossas crenças podem influenciar não apenas o que pensamos sobre uma mensagem, mas a maneira como a interpretamos. A polarização pode começar quando a mesma palavra, como “ameaça”, “segurança” ou “compaixão”, passa a organizar narrativas diferentes na mente de cada pessoa.
Fonte: Leong, Y. C. et al. Conservative and liberal attitudes drive polarized neural responses to political content. bioRxiv, 2020. DOI: 10.1101/2020.04.30.071084.