O coquetel químico por trás da urna
Você já se perguntou por que sente uma conexão tão visceral com o seu partido ou uma aversão quase física a um adversário político? E se por trás das ideologias e dos debates racionais, um “coquetel hormonal” em seu corpo estivesse influenciando silenciosamente suas lealdades? A verdade é que os hormônios não ditam nosso comportamento de forma rígida, mas modulam nossas emoções, percepções e tendências, dando um “empurrão” inconsciente em certas direções. Neste artigo, você vai conhecer três das descobertas mais impactantes sobre como essas forças biológicas atuam nos bastidores da sua escolha política.

A Ocitocina: O “hormônio do amor” que alimenta a polarização
Conhecida como o “hormônio do amor”, a ocitocina é crucial para criar laços sociais fortes, confiança e cooperação. Ela é a cola química que nos une à nossa família, amigos e aos grupos com os quais nos identificamos. No cérebro, ela ativa sistemas de recompensa e áreas associadas à empatia, fortalecendo a lealdade com quem percebemos como “do nosso lado”.
O lado surpreendente, no entanto, é que essa mesma ocitocina pode aumentar a desconfiança e a hostilidade contra aqueles que identificamos como “outgroup” o grupo de fora, os “outros”. Esse mecanismo biológico é um prato cheio para a retórica política do “nós contra eles”. Líderes que fortalecem a identidade de seus apoiadores enquanto demonizam oponentes podem estar, conscientemente ou não, ativando essa resposta hormonal para solidificar sua base.
O ‘hormônio do amor’ pode, então, ser o ‘hormônio da divisão’ dependendo do contexto.
A Testosterona: Por que nos sentimos atraídos por líderes “fortes”
A união do grupo não é a única força primitiva em jogo. Quando o grupo se sente ameaçado, outro hormônio assume o protagonismo. A testosterona está amplamente associada à competitividade, à busca por status e à dominância. Em líderes, níveis mais altos podem estar ligados a uma maior assertividade e disposição para assumir riscos. Existe até o chamado “efeito vencedor”: após uma vitória, como em uma eleição, os níveis de testosterona do vencedor podem aumentar, reforçando sua autoconfiança.
Para os eleitores, esse hormônio se torna particularmente relevante em momentos de crise ou ameaça. Nesses cenários, nosso cérebro busca instintivamente segurança, o que pode intensificar a preferência por líderes que projetam uma imagem de força e dominância. Podemos nos sentir atraídos por essa figura, associando suas características à testosterona, mesmo que sua abordagem seja simplista ou agressiva.
A retórica como catalisador hormonal por sua lealdade
A verdadeira maestria da retórica política reside em manipular esses sistemas hormonais. Um discurso eficaz primeiro inunda o cérebro dos apoiadores com ocitocina, usando termos como “nós”, “povo” e “nossa nação” para forjar um laço de confiança inquebrável. Imediatamente depois, ele aciona o eixo da testosterona ao apontar uma “ameaça” externa, fazendo com que esse grupo recém-unido anseie por um líder dominante para protegê-los.
É uma espécie de “guerra química” no sentido figurado, onde as palavras e imagens funcionam como catalisadores para essas respostas hormonais. A polarização é alimentada por essas táticas que reforçam os instintos biológicos de cada lado, tornando a conciliação e o diálogo cada vez mais difíceis.
Biologia não é destino, conhecimento é poder
É crucial entender que a biologia nos dá tendências, mas não determina nosso destino. Entender esses mecanismos, que interagem com fatores como o estresse e a recompensa, nos dá a chance de praticar a metacognição: a habilidade de pensar sobre como estamos pensando. É o esforço consciente para equilibrar os impulsos do nosso “cérebro reptiliano” com a análise do nosso córtex pré-frontal, a sede da razão. O conhecimento não nos torna imunes, mas nos transforma em eleitores empoderados.
Da próxima vez que sentir aquele arrepio de lealdade ou aquela repulsa por um adversário político, lembre-se: há mais do que ideologia em jogo. Seu corpo também está participando da votação.