A Mente em Disputa: Neurociência Desafia Reducionismo e Revela o Poder da Linguagem na Política

Análises do sociólogo Nicholas Rose e do linguista George Lakoff convergem ao expor as limitações da visão de que “transtornos mentais são apenas transtornos cerebrais” e ao decodificar como a moralidade, incorporada em circuitos neurais, molda o debate público.

Em uma era dominada pela “neuro-mania”, onde cada aspecto da condição humana parece prestes a ser decifrado por um escâner cerebral, duas correntes de pesquisa, de campos aparentemente distintos, apresentam um contraponto robusto e cientificamente embasado. Os trabalhos do sociólogo da ciência Nicholas Rose e do linguista cognitivo George Lakoff desafiam o dogma reducionista, argumentando que a mente não pode ser contida nos limites do cérebro, e que nossa biologia está em um diálogo constante e complexo com o ambiente, a cultura e a linguagem.

A Psiquiatria em Xeque: O Fim da “Revolução Estagnada”

Nicholas Rose, professor e um dos mais proeminentes críticos da biologização da psiquiatria, aponta para o que chama de “proposição radical” de Vernon Mountcastle: a ideia de que “o que torna o homem humano é seu cérebro”. Essa visão, que sustenta a tese de que transtornos mentais são, em essência, transtornos cerebrais, impulsionou décadas de pesquisa e investimentos bilionários, como o Projeto Cérebro Humano e a Iniciativa BRAIN dos EUA. Contudo, segundo Rose, os resultados práticos dessa abordagem são, no mínimo, decepcionantes.

A análise de Rose é implacável e baseada em três pilares da psiquiatria biológica que falharam em cumprir suas promessas:

  1. Psicofarmacologia: “Anomalias na neurotransmissão nunca foram demonstradas de forma consistente nas sinapses de pacientes vivos”, afirma Rose, questionando a base teórica de muitos antidepressivos. Ele destaca que, para transtornos leves a moderados, esses medicamentos não superam a eficácia de placebos e que a alta taxa de recaída após a descontinuação pode ser um “efeito da abstinência da droga, não uma recaída da condição”. A retirada da indústria farmacêutica do desenvolvimento de novas drogas psiquiátricas sinaliza o que ele chama de uma “revolução estagnada”.
  2. Genética: A busca por “genes da esquizofrenia” ou “genes da depressão” resultou em um beco sem saída. Estudos de associação genômica ampla (GWAS) identificaram múltiplas variações genéticas associadas a transtornos, mas, como salienta Rose, “nenhuma dessas variações é necessária ou suficiente para o desenvolvimento do transtorno”. Juntas, elas explicam apenas uma fração mínima da hereditariedade e demonstram uma surpreendente sobreposição entre condições distintas como autismo, transtorno bipolar e esquizofrenia.
  3. Neuroimagem: Apesar de milhares de estudos de fMRI e outras técnicas, “há poucas diferenças observáveis visualmente entre os cérebros de pacientes com transtornos psiquiátricos” e os de controles saudáveis, exceto em casos de demência. Rose levanta uma hipótese provocadora: as alterações cerebrais detectadas em condições como a esquizofrenia podem ser, na verdade, “resultados do diagnóstico e seu tratamento, em vez de serem anteriores e causais”.

A conclusão é ecoada por uma citação de Tom Insel, ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental dos EUA (NIMH), que lamentou que, apesar de um investimento de “$20 bilhões de dólares” em neurociência, “não movemos a agulha na redução do suicídio, na redução de hospitalizações, na melhoria da recuperação”.

Para Rose, a saída não é negar a biologia, mas reintegrá-la. Ele defende uma ciência que reconheça que “nada em biologia faz sentido exceto na escala de tempo da evolução e na escala de tempo do desenvolvimento”. Conceitos como epigenética (como o ambiente modifica a expressão gênica), neuroplasticidade e o microbioma são as verdadeiras fronteiras para entender como “relações sociais, interações e crenças” moldam a neurobiologia humana desde a concepção.

A Razão Incorporada: Como o Cérebro Enquadra a Política

Se Rose desconstrói o cérebro como única causa dos transtornos mentais, George Lakoff, a partir da linguística e da neurociência, desconstrói a razão como uma faculdade abstrata e desencarnada, com profundas implicações para a política. Lakoff ataca o legado cartesiano, argumentando que a razão é fundamentalmente incorporada, metafórica e emocional.

Sua pesquisa começou com a observação de metáforas conceituais como “AMOR É UMA JORNADA”, que estrutura expressões cotidianas (“nosso relacionamento chegou a um beco sem saída”). Essas metáforas não são floreios poéticos, mas “modos naturais de pensamento” que surgem de experiências corporais universais. “FELIZ É PARA CIMA” e “TRISTE É PARA BAIXO”, por exemplo, nascem da correlação física entre postura e estado de ânimo.

A base neural para isso é a aprendizagem hebbiana: “neurônios que disparam juntos, se conectam juntos”. Circuitos neurais que processam a temperatura física e o afeto são ativados simultaneamente com frequência, dando origem à metáfora “AFEIÇÃO É CALOR”.

Lakoff cita o trabalho do neurocientista Antonio Damasio, que demonstrou que pacientes com lesões cerebrais que os impedem de sentir emoções tornam-se incapazes de tomar decisões racionais. “Você deve ser emocional para ser racional”, conclui Lakoff. A razão precisa da emoção para estabelecer valores e metas.

Essa compreensão reverbera na arena política. Para Lakoff, a linguagem ativa “quadros” (frames) – estruturas neurais que contêm papéis, relações e cenários. Tentar negar um quadro do oponente, como no famoso exemplo “Não pense em um elefante”, apenas o reforça neuralmente.

A política, segundo ele, é inerentemente moral. As divisões políticas não são sobre lógicas diferentes, mas sobre sistemas morais distintos, enraizados em modelos de família idealizados:

  • Modelo do Pai Estrito (Conservadorismo): O mundo é um lugar perigoso. O pai, como autoridade moral, sabe o que é certo, impõe disciplina para formar o caráter e acredita na responsabilidade individual. O sucesso é um sinal de disciplina moral. Esse quadro explica a defesa de um governo que impõe essa moralidade (ex: leis sobre reprodução), ao mesmo tempo que se opõe a programas de bem-estar social (vistos como um enfraquecimento da disciplina).
  • Modelo dos Pais Nutricionalistas: Baseado na empatia, na comunicação e na responsabilidade mútua de criar filhos felizes e realizados. O papel da sociedade é proteger e empoderar todos os cidadãos.

Muitos eleitores, aponta Lakoff, são “biconceituais”: possuem ambos os modelos em seus cérebros, aplicados a diferentes esferas da vida. A batalha política, portanto, é uma disputa para ativar e fortalecer o quadro moral favorável e inibir o contrário. “A linguagem não é neutra”, sentencia Lakoff.

Convergência: Para Além de um Cérebro no Vácuo

Apesar das origens distintas, as teses de Rose e Lakoff formam uma poderosa crítica unificada ao reducionismo. Ambos demonstram que a complexidade da experiência humana – seja o sofrimento mental ou o engajamento político – não pode ser explicada por processos moleculares isolados.

Ambos utilizam a neurociência não como uma explicação final, mas como uma ferramenta para entender como o cérebro medeia a relação entre o organismo e seu mundo. Para Rose, a mente é moldada por um ecossistema de relações sociais e insultos ambientais. Para Lakoff, a razão é moldada por um corpo que se move, sente e interage com o mundo.

A conclusão de ambos os trabalhos aponta para uma ciência humana mais integrada, que abandona a busca por causas simples e abraça a complexidade. O cérebro não é um computador isolado, mas o órgão de nossa profunda e inescapável conexão com o mundo, com os outros e com a cultura que nos constitui.

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