A Máquina de Sentido: Como a Semiótica Decodifica o Populismo e os Mitos da Internet

De símbolos antigos à Teoria Ator-Rede, a ciência dos signos revela como a luta pela fixação de significados molda a realidade política e digital, transformando memes em poderosas narrativas hegemônicas.

Em uma era definida pela polarização política e pela proliferação de mitologias digitais, uma disciplina com raízes no século XIX emerge como uma ferramenta crítica para a compreensão do presente: a semiótica. Definida como a “ciência de todos os sistemas de signos e seus processos de significação”, ela oferece um arcabouço analítico para decodificar desde o discurso de um líder populista até a viralização de uma teoria da conspiração no mais profundo recôndito da internet.

A Gramática da Realidade: Os Blocos de Construção do Sentido

Para entender sua aplicação contemporânea, é preciso revisitar seus fundamentos, notavelmente o modelo triádico proposto pelo filósofo americano Charles Sanders Peirce, um dos pais fundadores da disciplina ao lado do linguista europeu Ferdinand de Saussure. Diferente do modelo diádico de Saussure (significante e significado), o de Peirce concebe o signo como uma relação de três partes:

  1. Representamen: A forma que o signo assume (uma palavra, uma imagem, um som).
  2. Objeto: A coisa concreta no mundo real à qual o signo se refere.
  3. Interpretante: A ideia ou o conceito mental que o signo gera na mente de quem o recebe.

O signo, portanto, atua como uma interface entre a realidade e a interpretação. Peirce classificou os signos com base em sua relação com o objeto, uma taxonomia essencial para a análise:

  • Ícone: Um signo que se assemelha fisicamente ao seu objeto (ex: o pictograma de uma câmera em um smartphone).
  • Índice: Um signo que tem uma conexão existencial ou de causa e efeito com seu objeto, exigindo conhecimento prévio (ex: fumaça é um índice de fogo; uma silhueta de lente pode indicar uma câmera).
  • Símbolo: Um signo cuja conexão com o objeto é arbitrária e estabelecida por convenção social ou cultural (ex: os algarismos numéricos, o símbolo de ligar/desligar).

A interpretação de qualquer signo, contudo, nunca é universal. Ela é radicalmente dependente do contexto, da cultura, do repertório e da experiência do indivíduo.

O Campo de Batalha Político: A Semiótica do Populismo

É no campo da semiótica social que foca nos processos de produção de sentido na vida cotidiana que essas ferramentas se tornam especialmente poderosas para analisar fenômenos políticos como o populismo. Pesquisadores descrevem o campo político como um “espaço discursivo de confronto”, onde a ação política é essencialmente uma “luta ou competição pela fixação de significado”.

Apesar da dificuldade em definir o populismo, um núcleo analítico comum emerge na pesquisa multidisciplinar, perfeitamente dissecável pela semiótica:

  • O Povo: Categoria central, tratada como um “significante vazio”. Seu significado não é pré-definido, mas construído discursivamente por meio de processos de “atualização” (quem é o povo), “generalização” (quais são suas características) e “axiologização” (atribuição de valor positivo, como “povo honesto”).
  • O Outro (A Elite): A construção de um “nós” (o povo) exige a construção de um “eles” (o não-povo), geralmente uma “elite” ou o “establishment”. Esse processo de polarização simplifica a realidade social.
  • O Líder: Figura-chave que personifica e modela “o povo”. Líderes populistas utilizam um vasto arsenal de recursos semióticos vestuário, linguagem corporal, “incorretismo político” para encenar proximidade e gerar identificação, criando uma “ilusão de imediatismo”.

Pesquisadores como Éliseo Verón, Peeter Selg e Andreas Ventsel conectam a semiótica a outras tradições, como a teoria do discurso da Escola de Essex (Laclau & Mouffe), mostrando que conceitos como “pontos nodais” e “antagonismo” são profundamente compatíveis com a semiótica. Eles argumentam que a comunicação política utiliza diferentes funções da linguagem, como a função fática (ritualizada), que pode ser usada para “desproblematizar” certos temas, tornando-os inquestionáveis (ex: direitos humanos), ou a função poética, que cria equivalências entre elementos diferentes, crucial para a lógica populista.

Um mecanismo semiótico chave é a desproblematização: quando a discordância sobre a definição de um problema é contornada ao se criar um consenso sobre uma suposta solução. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, o debate foi deslocado de uma crise de saúde para uma “crise de autoridade epistêmica” uma batalha sobre em quem acreditar.

O Abismo Digital: Mitos, Memes e a Teoria Ator-Rede

Essa batalha pela hegemonia do sentido encontra seu laboratório mais potente e caótico na internet. O pesquisador Robert W. Gehl, analisando o mito da “Mariana’s Web” através da semiótica e da Teoria Ator-Rede (TAR), oferece um estudo de caso exemplar.

O meme “Mariana’s Web”, que descrevia uma camada ultra-secreta e perigosa da internet, embora falso, foi aceito como fato por muitos. Gehl argumenta que o objetivo não é desmentir o mito, mas entender “o que ele revela sobre o contTArexto cultural de onde emergiu”. Um meme, uma unidade cultural circulada em subculturas, pode se tornar um mito quando suas significações se expandem para o imaginário cultural mais amplo, sendo “naturalizadas” e se tornando hegemônicas.

Para analisar como isso acontece, Gehl utiliza a Teoria Ator-Rede (TAR), descrita como uma “aplicação implacável da semiótica”. A TAR analisa como entidades (humanas e não-humanas, materiais e conceituais) ganham forma e poder através de suas associações. O mito da “Mariana’s Web” associa com sucesso:

  1. A Metáfora do Oceano: A internet como um mar profundo e perigoso, onde hackers e agências governamentais já controlam as profundezas.
  2. A Imaterialidade da Informação: A ideia mística de que a informação digital é infinita, aproveitando-se de conceitos como a computação quântica.
  3. A Cultura da Pós-Verdade: O mito ecoa a lógica conspiratória de que “a verdade está lá fora”, e que apenas um “pesquisador determinado” pode desmascarar as instituições ocultas que governam o mundo.

Gehl conclui que a “Mariana’s Web” é “real”, não como um lugar, mas em seus efeitos pragmáticos: inspirou serviços reais (ainda que como piada), alimenta a narrativa de teorias e é comercializada por empresas de segurança que vendem “escaneamentos da dark web”. O mito funciona porque ele cristaliza ansiedades culturais sobre a tecnologia, a sobrecarga de informações e a desconfiança nas instituições.

Em última análise, a semiótica demonstra que a realidade social não é um dado, mas um construto em permanente disputa. Da performance de um político à arquitetura de um meme, estamos imersos em uma batalha pela fixação do sentido uma batalha na qual a compreensão de suas regras não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade para a cidadania crítica.

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