Em um mundo saturado de imagens, notícias e inteligência artificial, a linha que separa o real da sua representação nunca foi tão tênue. Décadas antes do conceito de “pós-verdade” dominar o debate, o filósofo francês Jean Baudrillard já diagnosticava nossa condição com uma precisão assustadora: não vivemos mais na realidade, mas em uma “hiper-realidade”, uma cópia perfeita sem original.
A obra seminal de Baudrillard, “Simulacros e Simulação”, parte de uma antiga fábula de Borges, na qual um império cria um mapa tão detalhado que cobre perfeitamente todo o seu território. Para o filósofo, porém, a nossa era inverteu essa lógica. Hoje, “a simulação já não é a da simulação de um território […] É a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real”. Em outras palavras, o mapa veio antes da terra. Vivemos em um mundo gerado por modelos, onde a cópia não precisa mais de um original para justificar sua existência.
Baudrillard traça uma genealogia sombria da imagem em quatro fases. Primeiro, ela foi um reflexo fiel da realidade. Depois, tornou-se uma máscara que a distorcia. Em sua terceira fase, ela mascarava a ausência de uma realidade. E, por fim, a etapa final e atual: a imagem não tem mais qualquer relação com a realidade, tornando-se seu próprio “simulacro puro”. É neste estágio que a simulação reina.
Para tornar essa ideia radical mais palpável, Baudrillard usa exemplos icônicos. A Disneylândia, ele argumenta, não é um mundo de fantasia para nos distrair da América real. Pelo contrário, ela existe para nos fazer acreditar que todo o resto fora de seus portões é real, quando, na verdade, toda a América já opera sob a mesma lógica de simulação. Da mesma forma, escândalos políticos como Watergate não são a revelação de uma verdade oculta, mas um simulacro de moralidade, um teatro que reforça o sistema ao fingir que o expõe, enquanto os métodos dos acusadores e acusados se tornam idênticos.
Essa lógica se estende à forma como consumimos informação. Em um mundo de notícias 24 horas e feeds infinitos, Baudrillard previu a “implosão do sentido”. Sua famosa frase, “Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido”, nunca foi tão atual. A superprodução de informação não nos torna mais informados; ela neutraliza o significado, transformando tudo em ruído, em um espetáculo que passa por nós sem deixar rastros de compreensão.
A consequência final, segundo o filósofo, é uma nova forma de niilismo. Não o niilismo sombrio e dramático do passado, mas um niilismo de “transparência”, onde tudo está visível, disponível e, portanto, indiferente. Em um mundo onde o real e o falso, a verdade e o simulacro, se tornam indistinguíveis e intercambiáveis, a própria busca pela verdade perde seu propósito.
Décadas depois, as ideias de Baudrillard oferecem uma lente crítica indispensável para decifrar nosso presente. Da política performática nas redes sociais às imagens hiper-realistas geradas por Inteligência Artificial, sua obra não soa como uma teoria abstrata, mas como uma reportagem precisa de um futuro que já chegou. Ele nos deu o mapa para um território que ele sabia que estava desaparecendo, se tornando o próprio deserto do real.