Ah, o livre-arbítrio! Aquele conceito elusivo que nos permite sentir que somos os mestres do nosso destino, capitães da nossa alma e, claro, os únicos responsáveis por escolher a sobremesa errada. Eis que surge Robert Sapolsky, neurocientista de renome e, aparentemente, o estraga-prazeres oficial dessa festa da autonomia, munido de pesquisas com babuínos (sim, eles de novo!) e uma visão científica que sugere que somos todos… bem, passageiros em um trem bioquímico cujos trilhos foram assentados muito antes de comprarmos o bilhete.
Os Encantos (Cientificamente Embasados) da Tese Determinista:
Não se pode negar a elegância do argumento de Sapolsky, como apresentado. Sua tese não flutua em devaneios, mas finca raízes na biologia, na genética, nos hormônios que nos governam secretamente. Há um quê de beleza lógica na ideia de uma cadeia causal ininterrupta – um universo sem pontas soltas, onde cada pensamento é o eco de uma sinapse anterior, que por sua vez… bem, você entendeu. É quase um alívio pensar que não precisamos inventar explicações místicas para cada ação; está tudo ali, nos mecanismos (ainda que assustadoramente complexos) da natureza.
Ele também tem o mérito de cutucar nossas mais queridas intuições. Aquela história inspiradora de superação pela “força de vontade”? Sapolsky gentilmente (ou nem tanto) sugere que talvez seja apenas uma combinação favorável de neurotransmissores e oportunidades ambientais. E a culpa que carregamos? Um fardo talvez desnecessário, se ninguém “escolhe” ser quem é. Há um potencial humanizador inegável aqui: se ninguém merece seu destino, talvez possamos ser um pouco menos… julgadores? Odiar alguém se torna tão produtivo quanto brigar com a chuva – uma ideia com um certo charme libertador, há de se convir. A metáfora das “teias de aranha” também é um toque de mestre, reconhecendo a complexidade estonteante por trás da aparente simplicidade de “ser quem se é”.
Mas Nem Tudo São Neurônios: As Pedras (Filosóficas e Práticas) no Caminho Determinista:
Claro, onde há uma tese radical, há uma legião de “mas…” esperando na esquina. E com Sapolsky não é diferente. Os filósofos, com sua experiência milenar em destrinchar conceitos, levantam uma sobrancelha: será que Sapolsky não está combatendo uma versão um tanto caricata do livre-arbítrio? Aquela liberdade absoluta, quase divina, de agir imune a qualquer causa? Talvez existam formas mais sutis de liberdade – compatíveis com um mundo causal – que a ciência pura e simples não consegue capturar sozinha. Afinal, reduzir séculos de debate metafísico a uma questão puramente “científica” pode ser… um tanto audacioso.
Além disso, paira a sombra do pessimismo. Se somos apenas a soma do que não podemos controlar, qual a melodia que nos resta dançar? Sapolsky argumenta que é libertador para os “menos afortunados”, mas a questão sobre o que nos motiva a tentar, a criar, a sonhar, permanece com uma inquietante nota de rodapé. E não esqueçamos do “pequeno” detalhe prático: como funcionaria uma sociedade, especialmente um sistema de justiça, sem a noção fundamental de responsabilidade pessoal? A perspectiva de reformular tudo com base na neurociência é, no mínimo, vertiginosa.
Finalmente, o fato de sua posição ser “minoritária”, como o texto aponta, não pode ser ignorado. Estar à frente do seu tempo ou simplesmente fora da sintonia predominante? A história (determinada ou não) dirá.
Concluindo (Se é que Podemos Escolher Concluir Algo):
A incursão de Sapolsky pelo terreno minado do livre-arbítrio é, sem dúvida, fascinante e provocadora. Ele nos oferece um espelho bioquímico onde nossa imagem de agentes autônomos se dissolve em cadeias causais e teias de aranha. Seus argumentos têm a força da ciência e a beleza da lógica interna. Contudo, as objeções filosóficas, as preocupações existenciais e os desafios práticos nos lembram que a experiência humana talvez resista a ser completamente mapeada por neurônios e hormônios.
No fim, talvez a maior ironia seja esta: devotamos tanta energia, paixão e intelecto para debater se temos ou não a liberdade de escolher nossas próprias crenças sobre o livre-arbítrio. Continuaremos a fazê-lo, provavelmente. Seja por escolha, seja por determinação, é um espetáculo que vale a pena observar. Com um sorriso inteligente, claro.